O que o novo polo automotivo do Ceará representa para a indústria brasileira?
- tvplugoficial
- 4 de dez. de 2025
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A inauguração do Polo Automotivo do Ceará, em Horizonte, é um dos marcos da retomada da indústria automobilística brasileira. No evento de início das operações, nessa quarta-feira (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) destacou a necessidade de investir no setor.
O mandatário lembrou que a produção automotora brasileira caiu significativamente nos últimos anos. “Quando eu deixei a presidência, esse País produzia 3,6 milhões carros por ano. A estratégia da indústria automobilística era chegar a 6 milhões até 2015”, comenta.
A evolução, entretanto, não se concretizou. Em 2023, quando o petista voltou ao cargo de presidente, a produção foi de 2,3 milhões de veículos.
O montante chegou a 2,5 milhões em 2024, ainda longe do recorde registrado em 2010, de 3,63 milhões. Os dados são da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).
“O dia de hoje não é apenas de comemoração, é um dia em que a gente tem que fazer uma reflexão do por que as coisas não aconteceram com mais rapidez nesse País”, questionou o mandatário na inauguração do polo cearense.
O presidente destacou a importância da atuação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
“Acho que hoje posso dizer que tenho o mais importante ministro de desenvolvimento industrial que o Brasil já teve, porque junta competência técnica com competência política. Por exemplo, quando o Trump ameaçou a taxação ao Brasil, eu logo coloquei o Alckmin na frente”, disse Lula.
TERCEIRA PLANTA AUTOMOTIVA ABERTA NESTE ANO
O polo automotivo do Ceará opera onde funcionou a fábrica da Troller, que foi desativada pela Ford em 2021. O terreno foi transferido ao governo estadual e contou com benefícios fiscais do programa federal Mover.
Essa é a terceira planta automobilística inaugurada no Brasil nos últimos meses, destacou Geraldo Alckmin. “Quando assumimos, a indústria automotiva estava em crise. Inúmeras fábricas fechadas e enorme ociosidade”, afirmou.
Em outubro, foi inaugurada uma fábrica de veículos eletrificados da chinesa BYD em Camaçari, na Bahia. Com investimento de R$ 5,5 bilhões, a planta também foi instalada em uma fábrica da Ford que havia sido desativada.
Já em agosto, a GWM inaugurou fábrica em Iracemápolis, no interior de São Paulo, a primeira das Américas. O investimento foi de R$ 4 bilhões.
Os dois empreendimentos também são voltados para carros eletrificados, o que indica um interesse da indústria da eletromobilidade no Brasil.
Na análise do vice-presidente, o programa Nova Indústria Brasil estabelece incentivos importantes a indústrias inovadoras e ao desenvolvimento de pesquisas no País.
“Este ano, o Ceará recebeu R$ 3,5 bilhões de incentivos a inovação e sustentabilidade. É a legislação mais moderna do mundo, que vai 'do berço ao túmulo', trata sobre como produzo e como descarto os veículos”, comenta.
A indústria automotiva brasileira também deve se beneficiar de acordos para exportação, como as tratativas entre Mercosul e União Europeia, Singapura e Colômbia.
O que o polo do Ceará representa para a indústria automotiva brasileira?
De acordo com Célio Fernando, economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia (Ace), o novo polo automotivo no Ceará reforça a desconcentração regional da produção e o esforço de reposicionar o Brasil como base produtiva relevante.
Ele explica que a planta, voltada para veículos elétricos e exportação, se insere na estratégia de neoindustrialização e atualização tecnológica do setor.
A inauguração é, para ele, um sinal positivo, já que uma montadora só abre ou amplia fábrica quando percebe perspectiva de mercado e alguma estabilidade de regras, “mas, isoladamente, não consolida a retomada da indústria automotiva brasileira”.
Segundo Célio, a consolidação depende de novos investimentos, continuidade de políticas industriais, aumento das exportações e modernização tecnológica, especialmente na transição para elétricos e híbridos.
Para ele, a nova fábrica é um marco dentro de um ciclo maior.
“Se o investimento vier acompanhado de inovação tecnológica, integração com fornecedores locais e foco em produtos alinhados à transição energética, tende a ser não apenas um símbolo de retomada, mas um passo concreto na atualização e no reposicionamento de longo prazo do setor”, conclui.
Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon Ceará), acrescenta que há uma retomada de confiança das montadoras internacionais e multinacionais, gerando novos investimentos e “reativando algumas fábricas que estavam fechadas”, o que torna o setor mais competitivo.
Para o economista, esse cenário mostra que o País volta a atrair atenção das montadoras e reforça a importância dos investimentos recentes para o fortalecimento do setor.
O que o polo representa para a economia do Ceará?
Para Célio Fernando, a nova fábrica automotiva é um divisor de águas para a economia do Ceará. De acordo com o economista, o empreendimento deve gerar muitos empregos diretos e indiretos e aumentar a arrecadação, além de inserir o Estado em uma cadeia produtiva de alto valor agregado que envolve metalmecânica, eletrônica, logística e serviços especializados.
“Além disso, tende a atrair fornecedores e investimentos complementares, formando um polo industrial mais robusto, com efeitos duradouros sobre qualificação profissional, inovação e infraestrutura”, destaca.
Wandemberg Almeida acrescenta que o polo revela um contexto econômico mais amplo para o Estado. Para ele, “mostra uma recuperação das indústrias do Ceará” e a entrada em 'um novo segmento'.
Segundo o economista, a indústria automobilística puxa essa responsabilidade, impulsionando produção, vendas e exportações.
POLO AUTOMOTIVO CEARENSE
O polo automotivo de Horizonte já tem confirmada a produção de dois modelos de carro elétrico da General Motors (GM): o Chevrolet Spark e o Chevrolet Captiva.
A planta deve ter capacidade para produzir 10 mil veículos eletrificados já em 2026, com início regular das operações em fevereiro. O investimento da Comexport, empresa responsável pelo empreendimento, foi de R$ 400 milhões.
Voltada para veículos de novas tecnologias, elétricos ou híbridos, a planta funcionará no modelo multimarcas. A mesma infraestrutura será compartilhada para a montagem de carros de diferentes marcas.
Na prática, a Comexport adquire os direitos de produção e estrutura a linha de montagem dos veículos. Ou seja, a produção é terceirizada pelas montadoras, que compram os veículos produzidos ali.
A GM é primeira marca com modelos confirmados para produção em Horizonte. Devem ser anunciados nos próximos contratos com outras montadoras.
Conforme novos modelos forem adicionados ao portfólio, a área fabril deve escalar, destacou Rodrigo Teixeira, vice-presidente da Comexport. A empresa tem planos de expandir a planta, que hoje ocupa 120 mil m², agregando plantas para forncedores e até fábricas de peças.

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